26/04/15

Dia do pai todo o ano

                                           James Hetfield (Metallica) e a filha

Há uns dias atrás, trabalhava com a I. (como de costume) e assustei-me ao olhar para a mão dela. 
- Que te aconteceu ao dedo?
Vi que tinha uma unha negra. 
- Ah, não te contei? Entalei-me no carro, nem sei como... ainda por cima foi a mão esquerda - responde, desmanchando-se a rir. 
- Mas estás bem? Deve ter doído horrores...
- Sim, estou bem. 
Sei a dor que ela passou porque também já me aconteceu o mesmo há dez anos atrás. Eu e o meu pai fomos lavar o carro - saudades do meu Mercedes 190D- levámos baldes com água, panos e mãos à obra. A verdade é que aconteceu tudo bastante rápido: acabava de passar o pano junto à porta quando o meu pai, sem reparar, fechou-a com força. Já não fui a tempo de encolher a mão e senti que tinha entalado o dedo. De imediato, desatei a chorar com a mão magoada junto ao peito. O meu pai só repetia:
- Deixa-me ver. 
Lavada em lágrimas, ouvi-o dizer:
- Oh... ficaste com uma nódoa negra. 
Só aí é que olhei para a minha mão e vi que tinha uma das unhas toda negra. 
Continuava a soluçar e o meu pai abriu a porta de trás para nos sentarmos.
- Temos de manter a tua mão quente - recomendou ele, enquanto a colocava por baixo do casaco que ele trazia vestido - Tenho ali um sumo no tablier, queres?
Perfurou o pacote com a palhinha e deu-mo. Não sei se foi algum segredo chinês milagroso, mas a verdade é que minutos depois estava bem mais calma. O açúcar e o facto de ter a mão quente, junto às costelas dele acabou por atenuar a dor. 

Recordo este episódio com um sorriso no rosto, porque ele será sempre um pilar para mim. Olho para trás e vejo que ele já passou por tanto: uma ditadura chinesa - presumo que já tenham ouvido do Mao - além do facto de ter emigrado para dois países diferentes, sendo um deles, Portugal. Era professor na China e cá fora teve de se fazer à vida, tornando-se cozinheiro. E aqui está um pormenorzinho: ele não sabia cozinhar... nem sequer como cozer arroz. Ainda assim, vingou na vida, começando como um mero empregado até ser patrão, abrindo o seu próprio restaurante. Em dois países diferentes. Foi em Praga que senti na pele o que é estar num país diferente, cuja língua não falamos nem compreendemos nada à nossa volta e ainda assim fazermos as nossas vidas. 

Gosto de pensar que herdei o seu espírito trabalhador e lutador. Agora chegou a minha vez de cuidar dele. Ainda me lembro de o ajudar a pintar o cabelo, até que um dia ele se fartou e disse: "- Vou deixá-lo todo branco, como o Clinton!". Ano após ano, a sua saúde vai piorando ligeiramente... e fico sempre com o coração nas mãos. 
No entanto, todos os dias uso tudo aquilo que ele me ensinou e zelo por ele, como um anjinho da guarda. 

1 comentário:

  1. publicação maravilhosa. Sem dúvida os pais ou mais, sabem confortar-nos naqueles momentos dolorosos. E que gesto tão doce esse.
    Acredita, esses genes trabalhadores e lutadores estão sem duvida em ti

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"Eu desejava dizer muitas coisas à rapariga que roubava livros, acerca de beleza e brutalidade. Mas o que podia eu dizer-lhe acerca dessas coisas que ela não soubesse já? Queria explicar-lhe que estou constantemente a sobrestimar e a subestimar a raça humana - que raramente me limito a estimá-la. Queria perguntar-lhe como podia a mesma coisa ser tão horrível e tão gloriosa, e as suas palavras e histórias tão nefandas e tão brilhantes", Mark Zusak em " A Rapariga que roubava livros"

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