Ontem foi um daqueles dias em que nem sequer devia ter saído de casa, sabem? Trabalhava com a L., que está há pouco mais de uma semana na loja, e eu repunha uns artigos em falta na montra da prata. De repente, o telefone toca. Temos um no armazém cuja extensão dá directamente para a loja. De qualquer modo, naquele momento, pensei para mim: "Hum... encomenda não é de certeza, hoje é domingo..." A L. atendeu e eu continuei com o nariz enfiado na montra.
- Sim?
- Estou a ligar por causa da alfândega.
- A... sim?
- Tenho aqui um casaco perdido na porta 16.
- Pois, é engano, isto aqui é uma loja de artesanato.
Passado um minuto, voltam a ligar e a L. chama-me. Eu, com o meu mau humor, vou a praguejar entre os dentes "Fogo, uma pessoa não pode trabalhar em paz, não percebem que isto não é a alfândega?" Pego no telefone e atendo de forma abrupta:
- Estou?!
A L. olha para mim, erguendo as sobrancelhas de espanto.
- Tenho aqui um casac..
- É engano.
E pousei o auscultador com cara de poucos amigos. A L. desmancha-se a rir e eu voltei para a montra. Passado umas horas, já bem mais calma, pergunto-lhe:
- Eh pá... achas que fui muito rude ao telefone?
Ela ri-se e responde:
- Não, foste fantástica.
É uma querida.
É uma querida.




