É quase meia noite. Na plataforma da estação da Alameda, meia dúzia de pessoas com cara de cansaço aguardavam o metro e eu era uma delas. Geralmente, quando saio do trabalho a essa hora tardia, costumo encontrar a senhora das limpezas. Ora podia ser uma pessoa como outra qualquer mas há certos traços nela que prendem a minha atenção. É magra e pequenina, contudo o seu passo é rápido e decidido. Usa o cabelo ruivo solto, com apenas uma pequena mecha levemente entrançada atrás. E é sempre um poço de simpatia. Certa vez, enquanto ela lavava o chão, duas amigas conversavam entre si sentadas, à espera do metro. Ao verem-na, encolheram as pernas de modo a não estorvar, pelo que a "ruivinha" respondeu com um "fiquem à vontade, deixem-se estar" possivelmente bem mais doce do que o meu, quando o digo aos meus clientes.
No entanto, é sobretudo a sua saia que mais me desperta a curiosidade. É sempre comprida, até ao tornozelo e já a vi em diversos padrões: às flores, às pintas ou simplesmente lisas. É engraçado de ver como a saia vai esvoaçando, enquanto ela passa o chão com a esfregona, parecendo deslizar em pézinhos de lã.
Ontem passou por mim nas escadas. Cumprimentei-a e ela retribuiu com um largo sorriso. De seguida, dirigiu-se ao carrinho das limpezas e embrulhou a esfregona velha num saco de plástico, ficando o cabo de fora. Reparei que era a única que a observava. Os seus movimentos, enquanto trabalhava, eram tão fluídos que parecia os de uma bailarina. Por fim, começou a lavar o chão da plataforma. Do lado oposto, surgiu um colega, que lhe perguntou:
- Ainda demoras muito?
- Não. Estava aqui uma mancha preta que se via à distância.
- Então mas ainda falta?
- Não. Era uma mancha horrível, francamente querido.
Dei por mim a sorrir sozinha na estação. De facto, limpar tem muito que se lhe diga. Especialmente naquela estação de metro.





