15/04/16

O homem do jogging


Um tempo dos diabos. Saí para ir trabalhar a rogar uma praga ao vento que ameaçava virar o meu guarda-chuva. Levava comigo a farda num saco de papel vermelho (do género dos sacos da Primark, estão a ver?). Estava consumida no meu mau humor, quando de repente passa por mim um homem a fazer jogging à chuva. O que me chamou a atenção não foram os seus peitorais que tão bem se destacavam por baixo da t-shirt ensopada, mas a sua expressão. Caminhava com um sorriso no rosto e distraído nos seus devaneios, enquanto recuperava o fôlego. Segundos depois, voltou à corrida. 

Secretamente desejei ser como ele. Olhei para as pessoas à minha volta e algumas estavam a travar a mesma batalha que a minha, com o seu chapéu. Alheias ao que se passava à sua volta. Desejei largar tudo e correr tal como o homem que passara por mim, deixando a chuva tomar conta do resto. Claro que o bom senso e o meu lado racional não me permitiram fazer isso, mas sinceramente… mais valia tê-lo feito.

Cheguei ao trabalho encharcada e com as calças de ganga tingidas de vermelho. Sabem, é que papel vermelho, vento e chuva não são DE TODO uma boa combinação. No entanto, a cena do jogging não me saía da cabeça. Assim que regressei a casa, pus mãos à obra e continuei a trabalhar com afinco nos meus projetos. 

O homem que vi hoje foi como um pequeno lembrete que a vida me deu.  Algum dia vais ter de começar a fazer algo por ti. A vida passa a voar e não é agradável olhar para trás e ver que ela te passou ao lado. Que passaste a vida a lutar contra um chapéu quando se calhar também poderias andar a correr feliz à chuva. Falo por experiência própria. E é natural sentir medo e insegurança, ainda hoje de manhã criei uns dramas na minha cabeça dignos de uma novela da TVI. Ah, e falta também acrescentar a frustração. São precisos mil passinhos para obter um resultado - sem garantias de que seja um bom resultado. Mas vale a pena tentar, garanto-te. Por ti.

12/04/16

Camaleão

 

Camaleão.
De que cor?
Da cor da gente alheia e do teu eu esquecido
Da cor do “tem de ser”
Da cor dos valores que não são teus
Da cor da fama e do dinheiro
Da cor das coisas que na verdade não te pertencem.

Camaleão.
De que cor?
Da cor das lágrimas que nunca caíram
Das palavras retidas na garganta
Dos sentimentos incessantes.

Camaleão.
De que cor?
Da cor do teu sorriso e da saudade
Da cor do teu olhar castanho risonho
Da cor da ausência
Da nossa cor.
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"Eu desejava dizer muitas coisas à rapariga que roubava livros, acerca de beleza e brutalidade. Mas o que podia eu dizer-lhe acerca dessas coisas que ela não soubesse já? Queria explicar-lhe que estou constantemente a sobrestimar e a subestimar a raça humana - que raramente me limito a estimá-la. Queria perguntar-lhe como podia a mesma coisa ser tão horrível e tão gloriosa, e as suas palavras e histórias tão nefandas e tão brilhantes", Mark Zusak em " A Rapariga que roubava livros"

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