Um
tempo dos diabos. Saí para ir trabalhar a rogar uma praga ao vento que ameaçava
virar o meu guarda-chuva. Levava comigo a farda num saco de papel vermelho (do
género dos sacos da Primark, estão a ver?). Estava consumida no meu mau humor,
quando de repente passa por mim um homem a fazer jogging à chuva. O que me
chamou a atenção não foram os seus peitorais que tão bem se destacavam por
baixo da t-shirt ensopada, mas a sua expressão. Caminhava com um sorriso no
rosto e distraído nos seus devaneios, enquanto recuperava o fôlego. Segundos
depois, voltou à corrida.
Secretamente
desejei ser como ele. Olhei para as pessoas à minha volta e algumas estavam a
travar a mesma batalha que a minha, com o seu chapéu. Alheias ao que se passava
à sua volta. Desejei largar tudo e correr tal como o homem que passara por mim,
deixando a chuva tomar conta do resto. Claro que o bom senso e o meu lado
racional não me permitiram fazer isso, mas sinceramente… mais valia tê-lo
feito.
Cheguei
ao trabalho encharcada e com as calças de ganga tingidas de vermelho. Sabem, é
que papel vermelho, vento e chuva não são DE TODO uma boa combinação. No
entanto, a cena do jogging não me saía da cabeça. Assim que regressei a casa, pus
mãos à obra e continuei a trabalhar com afinco nos meus projetos.
O
homem que vi hoje foi como um pequeno lembrete que a vida me deu. Algum dia vais ter de começar a fazer algo por
ti. A vida passa a voar e não é agradável olhar para trás e ver que ela te
passou ao lado. Que passaste a vida a lutar contra um chapéu quando se calhar também
poderias andar a correr feliz à chuva. Falo por experiência própria. E é natural
sentir medo e insegurança, ainda hoje de manhã criei uns dramas na minha cabeça
dignos de uma novela da TVI. Ah, e falta também acrescentar a frustração. São precisos mil passinhos para obter um resultado - sem garantias de que seja um bom resultado. Mas vale a pena tentar, garanto-te. Por ti.

