Existe o típico cliché de dizerem que "desabafar com alguém ajuda". A verdade é que, às vezes, ajuda mesmo.
Tudo resultou num dia de merda. A gota de água foi quando me deitei no chão do meu quarto a olhar para o tecto. Dentro da minha cabeça só pensava: "Foda-se Catarina, tu tens a vida que desejavas há meses atrás, tens tudo para ser feliz e, no entanto, estás na merda." Tinha atingido o fundo do poço. Caiu-me a ficha, como costumam dizer. A minha colega de casa veio ter comigo e sentou-se ao meu lado:
- Preciso de sair daqui - sussurei.
- Daqui aonde?
- Daqui - retorqui, apontando para a minha cabeça - Achas que há forma de a calar só por um bocado?
Escusado será dizer que naquele momento já tinha desatado a chorar. Secretamente cobicei-lhe o copo de vinho, pois dizem que o álcool até costuma atenuar este tipo de coisas mas infelizmente os meus genes asiáticos não o permitem.
O facto é que a minha cabeça fervilhava e estava mesmo a passar um mau bocado. Não era o fim do mundo mas doía-me. A minha amiga, por outro lado, fez-me ver o problema de um ângulo completamente diferente. Fez-me inclusive reflectir nos diferentes capítulos da minha vida, despertando uma das minhas maiores qualidades (entre os meus muito defeitos, hã?), o meu lado racional. A minha vida tornara-se numa série à Shonda Rhimes naqueles breves instantes de análise.
Nos filmes, as personagem principal é feliz no seu apartamento fabuloso em Nova Iorque. Na vida real, há dias mesmo de merda. E esse era um deles. Sair de casa é brutal, é o grito do Ipiranga, é viver a independência na sua plena palavra. No entanto, é também algo que puxa pelo "eu" individual, fazendo com que nos conheçamos de novo (e eu a achar que já me conhecia bastante bem). Faz com que a vida ganhe um ritmo diferente, algo que pode ser aterrador ao início, mas maravilhoso a longo prazo.
Acabei a noite com o rosto enxuto pelas lágrimas mas iria ficar bem. Começa a ser a minha cena, de ficar em baixo e depois levantar-me pela enésima vez... bom, a minha e a de muita gente, não é verdade?
Imaginem só no que teria acontecido se me tivesse apoderado do copo de vinho.







