Era Janeiro de 2017 e tinha uma ideia na cabeça: de fazer voluntariado. Pesquisei por organizações mas nenhuma me atraiu a atenção. Quatro meses depois, conheci uma moça no meu antigo trabalho que me disse que trabalhava numa associação. Chamemos-lhe destino porque ficámos amigas e foi aí que iniciou o voluntariado da minha pessoa.
Há uns meses tomei a decisão de largar o meu trabalho e de abraçar uma nova oportunidade, uma vez que o voluntariado se tornara numa proposta de emprego. Iria então trabalhar com miúdos e ensiná-los todos os dias, não só a nível escolar, mas também a nível pessoal.
Podia agora descrever maravilhas e de vos contar que trabalhar na área é um conto de fadas e que ganho um ordenado à Bill Gates mas não é bem assim. Os miúdos são, de facto, encantadores e a maioria deles têm histórias de vida capazes de cortar o coração até ao maior insensível. No entanto, trabalhar no ramo do ensino não é pêra doce. Ensinar passinho a passinho e, mesmo assim, nem sempre resulta porque o aluno não entende por mais voltas que a gente dê. É aí que me questiono o que raio ando a fazer e se sou mesmo capaz de ir com isto para a frente. Depois da frustração, vem o sentimento de culpa, de ingratidão porque o Universo oferece-me esta chance de crescer, de me descobrir profissionalmente e eu hesito.

Por outro lado, há os miúdos. Reparem, meus queridos, eu não sei lidar com crianças e até há uns tempos não tinha grande paciência para eles - não é que agora tenha muita. Ainda hoje me deparo com situações com as quais não sei reagir, apesar de aprender todos os dias. Contudo, quem mais me ensina são mesmo os putos. A ser melhor pessoa, a ser mais. E saber que, de alguma forma, estou a contribuir para a vida deles, que a nossa associação é um porto de abrigo para eles deixa-me feliz. Um sítio onde podem rir, chorar, cantar, estudar e ah, comer!
Era para ser mais um trabalho, mas agora percebo que não funciona como os outros trabalhos, onde bastava praticar que a coisa automatizava. Ser lojista ou ser recepcionista num shopping é um questão de ir fazendo até o atendimento ser fluído, sem querer de forma alguma desvalorizar essas funções, claro. Aqui todos os dias acabam por ser diferentes porque lidamos com diferentes pessoas e diferentes problemas.
Também não era suposto afeiçoar-me muito a eles mas receio que isso já esteja a acontecer :-)
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